quarta-feira, 8 de julho de 2009

Estudantes universitários escrevendo mal


Muito mal, na verdade. Explico.

Como editor da seção focada em literatura de uma revista soteropolitana, fui encarregado de promover um concurso literário para, assim, selecionar bons contos, poesias e crônicas para publicar nas últimas páginas. Já que se tratava de algo interno à Universidade, apesar da revista ser distribuída em diversos pontos de Salvador, resolvi fazer a divulgação apenas nas Faculdades de Comunicação e de Letras. Imaginando, claro, tratarem-se de locais onde bons escritores não faltariam. E - é bom ressaltar -, tratou-se de um concurso voltado a alunos da Universidade Federal - a melhor daqui, não há dúvidas.

O que mais me espantou, na verdade, não foi o fato de serem poucos os bons textos enviados, mas pela grande quantidade de contos, poesias e crônicas muito ruins. Espanta-me saber que alguém matriculado em um curso de Letras ou Jornalismo escreva tão bem quanto um aluno de quarta série primária. Imagino, porém, que esses não sejam a maioria. Ou não?

Lembro de um post de André Gazola, do Lendo.org, sobre a fraca leitura dos estudantes de Letras. Segundo ele, grande parte de seus colegas voltam das férias entre um semestre e outro dizendo ter lido, apenas, best sellers. Triste, não? Esses serão parte dos futuros professores de Literatura.

Para onde caminham os estudantes universitários no Brasil?


*Créditos da imagem

13 comentários:

Emanuelle Najjar 8 de julho de 2009 07:14  

Não duvido. Não acontece apenas nas faculdades, mas certamente é o lugar onde causa maior espanto.

Mas, digo que muitos estudantes não se dignam a ler sequer os best-sellers: o simples fato de ler já parece uma vantagem. Não deveria, não é? Mas lembro que quando eu estava na faculdade, tinha quem achasse que o lugar não tinha biblioteca, e muitos passavam em frente a ela todos os dias.

Muito bom texto!

Elaine dos Santos 8 de julho de 2009 07:47  

Pois é, quando começamos a correção das redações do vestibular da Federal na região em que moro, costumamos perguntar que fará a correção das redações de Letras e Comunicação porque são os cursos que escrevem "um pouco mais melhor",ultimamente, contudo, esta noção tem mudado, Letras em especial tem apresentado candidatos fraquissimos. Dias atrás, conversando com um ex-professor, ele me disse que, no mestrado, o nível de escrita é ruim, muito ruim. Penso que o problema está na base, na alfabetização, mas como mudar o quadro se os novos professores são formados "neste esquema", voltam para as escolas e ensinam o que sabem...desconfio que serão necessárias novas e novas gerações para mudarem o quadro, o processo de degradação foi lento e silencioso, corroeu todas as bases, será preciso reinventar a leitura e a escrita...sei lá, estou desencantada. abçs :)

Anônimo 8 de julho de 2009 13:09  

Em Portugal a situação é semelhante, não há muitos estudantes universitários a escrever ao nível do ensino básico, mas muitos dão erros ortográficos que já não deviam ser dados e a maioria dos estudantes de letras e jornalismo lê pouco. Por cá o fenómeno deve-se a vários factores, como a falta de incentivos à leitura na infância e juventude, a crescente importância e peso de novas formas de comunicação, o desinteresse pelos cursos de letras devido à fraca empregabilidade, a quebra na qualidade do ensino nos níveis inferiores ao universitário, entre outros.

B 8 de julho de 2009 16:04  

Sinto nao ter tido tempo de enviar algo. Foi um semestre foda. Por outro lado, me sinto salvo, como se houvesse escapado por um triz de ter este post-facada em meu peito também ;P

Arthur Guerra 8 de julho de 2009 17:20  

Bom, eu posso não ter entendido muito bem o seu texto, mas acredito que você se confundiu em alguns pontos.
Parece-me que você quando diz que os universitários não escrevem bem, eles não são bons "criadores literários". Eu vejo uma enorme diferença entre escrever (redigir) bem e escrever (no sentido de construir uma narrativa) bem. Concordo que existem inúmeras pessoas cursando um curso superior que não conseguem sequer fazer um parágrafo inteligível, porém não parece ser esse o fato que você está reportando...
Outro ponto é pensar que apenas nas faculdades de letras formam-se "bons" escritores. Ao meu ver, os cursos são (ou deveriam ser) interessados em formar bons leitores. Uma faculdade de letras que se preze não propõe a formação de uma tropa de escritores, muito menos alguém torna-se melhor ou pior escritor por ser graduado em um curso destes. Não há como negar que, com o curso, você pode aperfeiçoar sua habilidade de escrever, porém uma coisa não está vinculada a outra.
Penso que o problema da má escrita, no sentido de má redação, está ligada a forma com que é trabalhada a língua portuguesa no ensino fundamental e médio, uma vez que o problema não se encontra apenas na escrita, como também na oralidade. Muitas pessoas não conseguem falar com clareza, assim como não conseguem escrever com clareza. Nesse período, as escolas deveriam preparar pessoas que escutam, falam e escrevem bem, e não apenas ensinar regras que servem apenas como "curiosidade inútil". Outro motivo que eu acho que influencia a má redação é a crença de que escrever é um "dom" e não uma atividade que deve ser treinada.

Como eu disse, posso não ter entendido bem se realmente era isso o que você estava dizendo, mas de qualquer forma essa é a minha opinião.

Ps: Não descobri como postar com meu nome e e-mail, mas se quiser responder, discordar ou algo parecido eu ficaria feliz em receber uma resposta - se tiver algo que responder também :).
arthurguerra@globo.com

Josafá Crisóstomo 8 de julho de 2009 18:42  

Achei muito sensato o comentário de Arthur Guerra. Por um momento, na leitura do post, pareceu-me que também era esse o problema: alunos de Letras não serem bons escritores, no sentido de literatos, embora também tenha acontecido de surgir textos em que as pessoas apresentavam as dificuldades que crianças da 4a série apresentariam, segundo o Leonardo.
Essa questão é muito difícil de ser julgada. As demandas da atividade escrita devem ser elaboradas na experiência pessoal, por um lado, mas também deveriam ser supridas pela escola, nos anos iniciais de formação e, por fim, serão solicitadas a vida inteira de uma pessoa, enquanto ela desejar escrever. Sim, mais uma vez o Arthur está com a razão: a escrita deve ser treinada, inclusive a reescrita, algo que os professores de língua deveriam propor em possíveis oficinas de redação. Escrever e reescrever como um exercício constante para que as pessoas pudessem, inclusive, aprender o prazer que também há nessa atividade que, lógico, é sempre, ou ao menos, muitas vezes difícil.

Metal Mind 8 de julho de 2009 21:39  

Deficiênca no ensino de base, a mídia televisiva sendo nivelada por baixo, o uso da internet quase que majoritariamente como 'teclofone', best sellers do nível de um 'Crepúsculo'.Isso levaria a qual outro resultado?

Bob 9 de julho de 2009 21:06  

O problema não é só no ensino de base, tem muita escola e colégio bom na cidade, digo por mim que estudei no Anchieta(aquele que hoje vive de fama e imagem).
O problema está na educação doméstica, tem muita gente que entra em colégio bom e só faz merda, e não tem outro termo, é merda mesmo. Tomo como exemplo os professores de terceiro ano reclamando de comportamento em sala de aula.
O descaso com a educação vem de casa, fora a falta de cultura e alienação que atinge as pessoas ainda na infância.
Não pensem que o problema é somente em ler e escrever, é em todas as áreas do conhecimento, e o pior é a incapacidade de pensar, de ter idéias e projetá-las. Tem muito potencial sendo jogado fora.

Leonardo Pastor 9 de julho de 2009 22:32  

Arthur e Josafá,

Esclareço: referia-me, em relação ao concurso, tanto a textos mal escritos, no sentido da redação mesmo, quanto a textos mal estruturados literariamente. Ou seja, não eram bons nos dois sentidos.

O que me preocupa não é a aptidão literária ou não. Mas sim, na verdade, a baixa qualidade de redação.

Ao meu ver, quem está num curso de Letras deve escrever, ao menos, razoavelmente. Afinal, não serão os professores de Português que irão acompanhar o desenvolvimento da escrita de seus alunos? Quem não sabe escrever bem é capaz de corrigir uma redação escolar?

Concordo com vocês: a escrita deve ser treinada.

Leonardo Pastor 9 de julho de 2009 22:35  

Breno,

Sem problemas, rapaz. É apenas uma pena não ter um texto seu lá. Com certeza, você não seria atingido por esse "post-facada".

Abraços!

Arthur Guerra 10 de julho de 2009 15:07  

Leonardo:

Continuo discordando de você. Pensar que só quem está num curso de Letras ou Comunicação deve escrever bem é desconhecer da utilidade da escrita em outros campos da ciência.
Sobre a necessidade de escrever bem para ler bem também, penso que não é tão simples e pragmático como você diz. Não duvido que uma pessoa que consegue redigir com mais destreza tem mais facilidade de "corrigir uma redação", no entanto ler e escrever são duas atividades, apesar de interligadas, distintas. Não são bons leitores simplesmente por serem bons escritores, e vice-versa. Você consegue imaginar um advogado, um biólogo ou um atuário bem-sucedido (eu sei, "bem-sucedido" não é uma boa palavra para ser usada, mas imagino que você entenda o que eu quis dizer) com uma "baixa qualidade de redação"?

Sobre a afirmação de que os alunos da letras "serão os professores de Português" é simplificar e ver muito superficialmente um curso - em algumas faculdades, claro - tão rico e variado como este.

Eu concordo em grande parte com a ideia que você quis passar com esse post, o problema, ao meu ver, são os argumentos utilizados...


Bob:

Concordo que o problema não está apenas na escola, realmente muitos pais acreditam que a "educação" é tarefa apenas para os professores.


Metal Mind:
Não acho que a culpa é de nenhum dos outros apontados por você (exceto, claro, da "deficiência no ensino de base"). A televisão não é nociva, best-sellers fazem tão mal quanto os cânones e eu duvido que alguém que escreve em miguxes na internet escreva uma prova desse jeito...

arthurguerra@globo.com

Diego Viana 11 de julho de 2009 12:35  

Tem um fator que precisa ser lembrado: a própria seleção dos cursos é muito fraca e distorcida. As pessoas acabam entrando em Letras, Geografia e História não porque se interessem por qualquer dessas disciplinas, mas porque a nota de corte no Vestibular é a mais baixa. Não estou supondo, isso acontece DE VERDADE. Paradoxalmente, os alunos escrevem mal não "apesar" de seguirem curso de Letras, mas quase "por causa" disso.

Amiga do Cafa 29 de julho de 2009 01:25  

Não caminham.
O problema é que agora todo mundo quer ser escritor.

Postar um comentário

Vísceras Literárias - Literatura para o bom leitor

  © Blogger template 'Perfection' by Ourblogtemplates.com 2008

Back to TOP