domingo, 4 de abril de 2010

Entrevista com Paula Parisot

Na Revista Muito de hoje, domingo de páscoa, foi publicada uma entrevista que fiz com Paula Parisot. A escritora carioca gerou uma certa polêmica ao interpretar sua própria personagem enquanto ficava confinada por uma semana numa livraria

Veja, abaixo, a entrevista na íntegra:

O que você  pôde tirar de proveitoso da experiência?  
Descobri algumas coisas fazendo essa performance e creio que outras irei descobrindo aos poucos, com o tempo. Tenho a sensação que alonguei a minha alma, percebi que aguento muito mais dor, alegria, tristeza, solidão, desamparo, angustia, etc. do que imaginava. Poderia até dizer que essa experiência foi um exercício de liberdade. Se eu me sentia sozinha ao invés de ignorar ou reprimir a solidão eu a aceitava. Eu dizia “sim” para tudo aquilo que normalmente, no nosso dia-a-dia, tentamos negar. Ao dizer “sim” para o desamparo eu transcendo o desamparo. Hoje posso afirmar que eu – e quando digo eu me refiro a cada um de nós – sou maior que qualquer mal-estar. Outra coisa que foi muito valiosa foi a minha relação (sem palavras ou gestos) com o outro. Ao ver o outro (ver mesmo, não apenas olhar) eu via que a minha euforia, a minha melancolia, insegurança, etc., não é tão diferente da dele. Eu era eu (Isabela, Baronesa, Menina Nua) e era também um espelho. Aproximei-me de algo que parecia ser o sentimento primeiro, o rosto primeiro, como disse Yeats em um de seus poemas.

Como surgiu a ideia do confinamento numa livraria?
Em agosto de 2009 fui assistir no MOMA em Nova York a uma retrospectiva da obra do artista alemão Joseph Beuys. Lá vi um video da performance “Coyote: I like America and America likes me” que me deixou sem fala e me fez permanecer sentada por algum tempo em um banco de madeira muito desconfortável. Via na tela na televisão Beyus e um coiote trancados em um jaula. Volta e meia o artista encarava a câmera, me encarava, e eu, por alguma razão que não sei explicar, fui levada a pensar no meu romance “Gonzos e parafusos”, na Isabela, na minha vida e ali, com os olhos fixados em Beuys disse para mim mesma : “Eu serei a Isabela”. Não vi mais nada no museu, peguei o metrô e fui para o local onde estava hospedada e esbocei num papel um ambiente com uma cama, uma mesa, uma cadeira e um espelho, que deveria ser montado no centro de uma livraria, onde eu, como a Isabela quando quis ser a Baronesa Elisabeth bachofen-Echt (pintura de Gustav Klimt), viveria durante sete dias e seis noites. Naquele mesmo dia fiz as regras da minha performance e nada me faria desistir dessa ideia. Fazer a performance era uma necessidade assim como havia sido uma necessidade de escrever “Gonzos e parafusos”. 

Performance artística e literatura. Combinam?   
Creio que essa é a primeira vez que um escritor faz uma performance. Isso é comum nos artistas plásticos, músicos e em outras categorias de artistas, mas escritor, pelo o que eu sei, foi a primeira vez.
O elo entre a performance e  a literatura é o mesmo entre qualquer  expressão artística. A música, a pintura, o teatro, a literatura, são meios e a relação entre eles quem dá é o artista. Todas as formas de expressão artística estão aí, a nossa disposição, e cabe  ao artista usá-las de acordo com as suas necessidades. Os primeiros  artistas que faziam performances eram pintores, escultores que eventualmente  faziam performances como Yves Klein, Joseph Beuys e  muitos outros. Pode-se encontrar vestígios da arte performática no renascimento quando pintores  faziam a sua arte na frente de uma  audiência. Por que um escritor não pode fazer uma performance? Por que isso parece tão estranho? Eu me expresso através da escrita, não sou  uma artista performática e não tenho qualquer pretensão no  mundo das artes plásticas, porém eu posso ser uma escritora que faz  performance, assim como posso ser uma escritora que desenha. Eu tenho um  amigo, um grande artista plástico alemão, que escreve, tira fotos, mas em  nenhum momento ele se define como um escritor ou um fotógrafo. Ele diz, “eu sou um artista plástico com uma maquina fotográfica. Um Sebastião Salgado, um  Cartier Bresson, estes sim são fotógrafos, não eu.” É o meu caso, eu escrevo,  mas senti a  necessidade de fazer uma performance, percorrer o caminho inverso.  Quando escrevo crio um personagem, ele existe em mim antes de ser colocado no papel e durante a performance fiz o caminho inverso,  parti de um  personagem que já havia criado, que já existia e vivi um  fragmento da vida dele.

Numa proposta inusitada como essa, é impossível não pensar no impacto na mídia. Este era o principal objetivo?   
Não, de forma alguma. Eu nem esperava que isso ocorresse.

É comum falarem de sua semelhança literária com Rubem Fonseca. Acha essa comparação válida? 
Quem me dera escrever como o Rubem Fonseca. Ele é um mestre.

Seu “padrinho literário”, aliás, é conhecido pela reclusão. O que te fez buscar um caminho oposto?  Na verdade eu e o Rubem somos pessoas muito diferentes, não só porque anos e anos nos separam, ele é mais de meio século mais velho do que eu e quando eu o conheci, primeiro através da sua literatura e depois em pessoa, ele já era um mestre e eu ainda estava começando. Ainda estou começando, ainda estou descobrindo quem sou, quem é essa pessoa que escreve, que faz performance, desenha, que acorda todas as manhãs e vai na padaria da esquina tomar café. Quem é essa pessoa? Para ser sincera desconfio que eu nunca descubra o que quero descobrir e, talvez, essa seja a grande cilada da vida. Estarmos perdidos nesse labirinto que somos nós mesmos. Mas, como estava dizendo, eu e o Rubem somos diferentes, além do tempo, há ainda a nossa formação, a nossa história de vida que é muito distinta, mas como ele eu quero viver e viver o máximo que puder o presente, mas isso é difícil. Para uma pessoa como eu, e creio que para a maioria das pessoas, é um grande desafio viver o presente.  Porque é como se estivéssemos sempre presos entre o passado e o futuro. No entanto, entre o passado e o futuro existe o presente. Por isso, termino o “Gonzos e parafusos” dizendo: “Não há saída, eu estava cercada por todos os lados: pelo hoje, pelo começo e pelo fim. Perpetuamente condenada ao agora. Será que algum dia eu estaria pronta para isso, para o sempre, para o para sempre, que, como disse Emily Dickinson, é composto de agoras? Esta história, como todas as histórias, não chegou ao fim. Ela continua, o agora não cessa nunca o seu vir a ser, seu devenir”. O que quero dizer? O Rubem é um homem que sabe viver o presente e isso eu quero aprender com ele, além das diversas outras coisas que já aprendi e aprendo. E a performance foi mais uma forma de eu expressar essa minha necessidade, minha e da Isabela, de viver o presente e mais do que isso, estar viva no presente e ser quem eu quero ser, eu Isabela, eu Baronesa, eu Menina Nua, Isabela Baronesa, Isabela Menina Nua, Isabela Paula, Isabela Personagem, Isabela Autora, eu e todas as outras que sou, porque eu sou muitas, você é muitos, Whitman era muitos como ele disse em um poema “eu contenho multidões”. Então, como você vê, eu e o Rubem somos diferentes, logo os nossas escolhas e caminhos serão distintos. 

Assim como a personagem de Gonzos e Parafusos, você tem obsessão por alguma obra de arte?  
Gosto de arte, estudei arte. Sou formada em desenho industrial e fiz mestrado em belas-artes, mas não tenho obsessão por qualquer obra de arte ou artista.

Qual foi o maior desafio, escrever o primeiro romance ou encarnar a própria personagem?  São desafios distintos, quase incomparáveis. Escrever o meu primeiro romance foi desafiador porque descobri que eu precisava de um fôlego que o livro de contos não me exigiu. Ainda assim eu acredito que escrever conto é mais difícil, ainda que menos trabalhoso. Escrever um romance exige muita disciplina e motivação porque você não pode parar, tem que trabalhar com afinco diariamente, tem que se sentar na frente do computador ou com um caderno na mão, mesmo que não consiga escrever uma frase sequer. Já a performance é um outro desafio, na verdade, é uma outra forma de expressão. A performance exige coragem, onde você se expõe em pessoa, você está fisicamente presente, o confronto entre “artista” e “espectador” acontece em tempo real e é efêmero, diferente do livro que fica (pelo menos gostamos de imaginar que ele fique ainda que ninguém o leia) e você pode nunca ver o escritor, a não ser em uma foto na orelha do livro. A performance que fiz exigiu de mim muita disciplina, afinal foram sete dias e seis noites, sem falar com qualquer pessoa, sem ler, presa em um espaço de 3X4 metros. E nesse “espaço” eu tentei criar condições externas que me ajudassem a viver o estado de alucinação da Isabela. Não sendo uma pessoa delirante como a minha personagem, precisei criar essas regras, e como sabemos o confinamento induz ao delírio. Confesso que não perdi a razão ou sofri qualquer desvario, mas me aproximei de várias sensações descritas no final do livro, quando a Isabela fica internada na clinica de repouso. O delirante não se comunica com o mundo externo, para ele só ele existe, ele e o que o cerca e as suas alucinações. E durante a performance, mais precisamente a partir do segundo dia, apenas existíamos eu e minha imaginação.  Tornei-me a dona daquela “morada de acrílico” e a “morada de acrílico” se tornou um pedaço de mim e no final eu já pensava que cada um de nós é uma “morada de acrílico”, cada um de nós é um universo e se eu sei percorrer o meu universo com segurança aceitando até aquilo que quero negar, eu transcendo aquilo que me assusta, ultrapasso o meu limite, e o único limite que existe e interessa é aquele que inventamos. Por que, afinal de contas, qual é o limite?

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